Como saber se os seus sintomas podem estar relacionados ao silicone?
Muitas mulheres colocam próteses mamárias em um momento feliz da vida. Geralmente são pacientes saudáveis, que se sentem bem, estão trabalhando, cuidando dos filhos, fazendo atividade física e vivendo normalmente. A cirurgia é realizada, o pós-operatório passa e a vida continua. Durante anos, muitas não percebem absolutamente nenhuma alteração e seguem suas rotinas sem qualquer preocupação.
Entretanto, em algumas situações, depois de um período que frequentemente pode surgir alguns anos após a inclusão dos implantes, algumas pacientes começam a perceber pequenas mudanças no próprio corpo. Essas mudanças normalmente não aparecem de forma abrupta e não chegam de uma vez. Pelo contrário: costumam surgir lentamente, quase de forma silenciosa.
No início, geralmente são sintomas discretos, ocasionais e passageiros. Um dia surge um cansaço que parece não fazer sentido. Em outro momento aparece uma dor muscular diferente. Depois surge uma dificuldade maior para se concentrar, uma sensação de fadiga fora do habitual ou um período de queda de cabelo que parece maior do que o esperado. Algumas pacientes percebem olhos mais secos, outras começam a apresentar dores articulares, zumbidos nos ouvidos, candidíase de repetição, alterações na tireoide, dor mamária, dor lombar, retenção de líquidos, olhos inchados ao acordar, baixa libido, alterações de humor ou uma sensação constante de falta de energia.
Algumas relatam distensão abdominal, dificuldade para manter o peso, surgimento tardio de intolerância ao glúten ou à lactose, alterações intestinais, dificuldade para engravidar, névoa cerebral, confusão mental e uma sensação difícil de explicar, mas muito frequente nos relatos: a sensação de que alguma coisa mudou e o corpo simplesmente não parece mais o mesmo.
O mais difícil é que esses sintomas geralmente não aparecem todos juntos. Eles surgem lentamente. Primeiro um. Depois outro. Alguns desaparecem, outros voltam. Com o passar do tempo, podem se tornar mais frequentes, mais intensos e começam a se somar a novos sintomas.
É nesse momento que muitas mulheres iniciam uma jornada cansativa e emocionalmente desgastante. Procuram um médico, depois outro, depois outro. Realizam exames, consultam especialistas diferentes e tentam encontrar uma explicação para o que estão sentindo.
Mas existe algo que costuma se repetir em muitos relatos: os exames frequentemente aparecem normais. Quando existe um sintoma isolado, muitas vezes ele até recebe alguma explicação específica. Mas quando existe dor na articulação, cansaço, queda de cabelo, alteração intestinal, zumbido, dificuldade de concentração e sintomas espalhados por várias regiões do corpo ao mesmo tempo, muitas pacientes começam a sentir algo extremamente frustrante: a sensação de que ninguém consegue conectar todas as peças.
E é justamente nesse momento que muitas fazem uma pergunta que pode mudar completamente a forma como enxergam a própria história:
“Será que os meus sintomas podem estar relacionados às próteses?”
Na maioria das vezes essa dúvida surge após ouvir o relato de uma amiga, ler uma notícia, assistir a uma entrevista ou encontrar outras mulheres descrevendo sintomas extremamente parecidos com os seus.
E aqui é importante falar algo com muita honestidade.
Atualmente, não existe um exame específico capaz de afirmar que sintomas sistêmicos espalhados pelo corpo sejam diretamente causados pelos implantes mamários. Quando falamos de sintomas locais, como dor mamária, endurecimento da mama, contratura capsular, inflamação local ou seromas tardios, a relação costuma ser mais objetiva porque existem alterações identificáveis durante a avaliação médica.
Mas sintomas como fadiga, dores pelo corpo, névoa cerebral, zumbido ou alterações do humor podem ter múltiplas causas possíveis.
Por isso, a medicina trabalha de outra maneira: através da análise clínica associada às evidências científicas disponíveis.
O médico avalia a história da paciente, o momento em que os sintomas começaram, sua evolução ao longo do tempo, os exames realizados, a exclusão de outras doenças e os dados científicos existentes até o momento.
Diversos estudos mostram que pacientes com quadros clínicos semelhantes apresentaram melhora significativa após a retirada dos implantes. Em média, aproximadamente 80% das pacientes relatam melhora parcial ou importante dos sintomas após o explante.
Isso não significa que toda mulher com fadiga, queda de cabelo ou dores articulares tenha sintomas relacionados ao silicone. Mas também não significa que sintomas persistentes devam ser ignorados simplesmente porque os exames vieram normais.
O corpo frequentemente começa a enviar sinais muito antes de a medicina conseguir explicar completamente o que está acontecendo.
Talvez a pergunta mais importante não seja: “Existe um exame que prove isso?”
Talvez a pergunta mais importante seja: “Meu corpo mudou depois dos implantes?”
Você conhece o seu corpo melhor do que qualquer exame. Você sabe como era sua disposição, sua energia, seu sono, sua concentração e sua qualidade de vida antes dessas mudanças começarem.
Isso não significa que o silicone seja automaticamente a causa dos seus sintomas. Mas significa que você merece ser ouvida.
Você merece uma avaliação individualizada, cuidadosa, baseada em ciência, mas também baseada na sua história e no que você sente.
Porque, muitas vezes, o primeiro passo não é encontrar imediatamente uma resposta definitiva. O primeiro passo é parar de ignorar aquilo que o seu próprio corpo vem tentando dizer há muito tempo.