Explante na terceira idade: por que muitas mulheres ainda sofrem sem saber que podem melhorar?

Muitas mulheres chegam à terceira idade convivendo diariamente com sintomas que, aos poucos, passam a ser vistos como “normais da idade”. Cansaço constante, dores pelo corpo, dificuldade para dormir, perda de memória, sensação de indisposição, dores nas mamas, dores articulares, dores musculares e até infecções de repetição acabam sendo aceitos como parte natural do envelhecimento. Porém, em muitas dessas pacientes, existe um detalhe importante que quase nunca é lembrado: a presença de próteses de silicone colocadas há 10, 20, 30 ou até mais de 40 anos.

É muito comum atender pacientes entre 60, 70 e até 80 anos que nunca imaginaram que os sintomas poderiam ter alguma relação com os implantes mamários. Algumas convivem há anos com contraturas capsulares importantes, endurecimento das mamas, retrações, dores para se movimentar, desconforto ao deitar e sensação constante de peso no tórax. Outras apresentam sintomas mais gerais, como zumbido no ouvido, cansaço visual, alterações da memória, insônia, dores lombares e sensação persistente de inflamação no corpo.

Muitas vezes, essas pacientes passam por diversos médicos, realizam inúmeros exames e recebem tratamentos para sintomas isolados, sem que ninguém avalie a possibilidade de os implantes estarem participando desse processo inflamatório crônico. E o mais impressionante é que muitas dessas mulheres sequer cogitam retirar as próteses porque acreditam que “já passaram da idade” para uma cirurgia.

Esse é um dos maiores mitos que existem sobre o explante.

A idade, isoladamente, não é o principal fator para definir se uma paciente pode ou não operar. O mais importante é avaliar a condição clínica geral daquela mulher. Existem pacientes de 70 anos extremamente saudáveis, ativas e bem controladas clinicamente, que podem ter muito mais segurança cirúrgica do que pacientes mais jovens com doenças descompensadas, obesidade grave ou condições clínicas de maior risco.

Por isso, cada caso precisa ser avaliado de forma individualizada, respeitando a história, os exames, os sintomas e principalmente os objetivos da paciente.

Quando bem indicada, a cirurgia de explante pode trazer benefícios extremamente importantes para mulheres da terceira idade. O procedimento geralmente envolve a retirada das próteses, retirada das cápsulas ao redor do silicone e reconstrução da forma das mamas, normalmente através de uma mastopexia com cicatriz em T invertido. Em muitos casos, a paciente volta a ter uma mama mais leve, mais confortável e mais coerente com a sua fase atual de vida.

Claro que alguns cuidados são fundamentais nessa faixa etária. O planejamento cirúrgico deve ser mais criterioso, o hospital precisa ter estrutura adequada, a equipe deve estar preparada para atender pacientes mais idosas e a avaliação pré-operatória precisa ser feita com atenção, principalmente pelo cardiologista e pelos médicos que já acompanham essa paciente. O hospital deve possuir suporte de UTI e toda a retaguarda necessária para oferecer máxima segurança. Pessoalmente, não realizo cirurgias desse porte fora de ambiente hospitalar completo e adequado.

Mas quando tudo isso é respeitado, os resultados podem ser surpreendentes.

Muitas mulheres relatam melhora importante da disposição, redução de dores, melhora da qualidade do sono, maior facilidade para se movimentar e até recuperação da autoestima. Algumas pacientes dizem sentir como se tivessem “tirado um peso do corpo”. Outras relatam que voltaram a ter prazer em realizar atividades simples do dia a dia que já haviam abandonado há anos.

E talvez exista um ponto ainda mais importante: a paciente volta a sentir que retomou o controle sobre o próprio corpo.

Não é porque uma mulher chegou aos 60, 70 ou 80 anos que ela deve aceitar viver o restante da vida com dor, desconforto, limitações físicas e sintomas relacionados a próteses antigas, encapsuladas ou desgastadas pelo tempo. O envelhecimento saudável também envolve revisar aquilo que já não faz mais sentido para o corpo naquele momento da vida.

Hoje, pessoalmente, não realizo colocação estética de próteses mamárias nem mesmo em pacientes jovens de 20, 30 ou 40 anos, principalmente pensando no longo prazo. Isso porque toda prótese pode gerar futuras cirurgias, trocas, contraturas, rupturas e novos problemas ao longo dos anos. E quando pensamos em uma paciente mais idosa, essa reflexão se torna ainda mais importante. Por isso, muito menos considero coerente indicar colocação ou troca de implantes em pacientes de 60, 70 ou 80 anos, que possivelmente poderão precisar enfrentar novas cirurgias em uma fase ainda mais delicada da vida.

Claro que cada paciente possui autonomia para decidir o que deseja fazer. Meu papel não é impor escolhas, mas orientar com honestidade, responsabilidade e coerência médica. O mais importante é que cada mulher tenha acesso à informação de qualidade para tomar decisões conscientes sobre o próprio corpo.

Nesses casos, o explante não representa uma cirurgia estética. Representa uma cirurgia reparadora, voltada para devolver conforto, leveza, liberdade, mobilidade e qualidade de vida. Em muitas pacientes, significa inclusive resgatar a saúde e permitir um envelhecimento mais tranquilo, ativo e saudável.

E talvez a mensagem mais importante seja essa: nunca é tarde para buscar saúde, bem-estar e uma vida mais tranquila.

Dr. Juldásio Galdino
Cirurgião Plástico – Brasília/DF
CRM-DF 13824 • RQE 9009